Eu não saberia explicar.

Menina síria refugiada

Au, au au… Dog!

Meaouuuuuu… Cat!

(pula, pula, pula)… Rabbit!

Essas foram as palavras (sons e gestos) que ela fez, tentando nos mostrar o que sabe de inglês. No mais, toda a nossa comunicação aconteceu pela linguagem universal do palhaço. Como tudo na vida, isso tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é a prova de que o “idioma palhaçal” é de fato universal, e nos permite estabelecer uma comunicação que ultrapassa qualquer tipo de barreira linguística, cultural e religiosa.

O lado ruim é que não podemos saber um pouco mais sobre a sua verdadeira história. O lado bom disso é que caso esta menina síria nos perguntasse porque ela é a “escória do mundo”, porque ela tem que fugir de casa, ou por que ninguém a quer receber uma vez que fugiu de casa, nós realmente não saberíamos o que dizer.

Como deve ser difícil tentar explicar para ela que a odeiam simplesmente pelo fato dela ter nascido onde nasceu, ou por ter tal religião como a escolhida por seus pais em termos da sua filosofia de vida!

Por sorte ela não nos perguntou. Apenas riu, brincou conosco e se divertiu conosco por alguns minutos. Duvido que tenha a dimensão real do que está acontecendo com ela de fato:  a fuga, a espera por um trem para a Alemanha… Talvez até saiba mais do que eu imagine, mas de qualquer forma seria muito difícil entender a razão de tudo isso.

Perceber a doçura, a inocência e a alegria desta linda menina dá um nó em nossas ideias e conceitos. Ela aliás, representa bem a atmosfera que sentimos também ao brincar com outras crianças refugiadas que nós conseguimos interagir na Wien Westbahnhof, Viena.

Obviamente, dentre todas as outras pessoas que estão indo da Síria (ou de qualquer outro país) para a Europa e outras partes do mundo, há gente mal intencionada. Assim como há com certeza gente má intencionada  em nossas famílias (talvez até dentro da nossa casa), em nossa comunidade, em nosso bairro, em nosso sistema de governo, nas escolas e hospitais que frequentamos, na ciência, no esporte, na religião e etc… Enfim, grupos de humanos. Em todos os grupos e em todas as épocas há pessoas imbecis, com a diferença de que em alguns lugares e/ou regiões estas conseguem se organizar um pouco melhor e daí, vimos todo o tipo de doença que adoece nossas sociedades desde sempre! Portanto, não conseguimos aceitar uma ideia que generalize a conduta da totalidade do grupo de cidadãos de um determinado país ou religião.

Daí, quando você se depara com uma figura cativante como esta da foto, a única coisa que você pensa é: que pecado esta menina cometeu?

Tudo bem que a estação não estava tão cheia no momento em que estivemos lá, e por isso podemos falar apenas sobre um extrato MICRO/MÍNIMO/ da população refugiada síria. Mas é desse pequeno mundinho que falo. Não falo do que li, ou do que vi nos meios de comunicação. Falo aqui da pequena experiência que vivi, e dos poucos refugiados sírios que conseguimos interagir na Áustria.

O que vimos foram pessoas que não querem receber esmolas, mas acabam sendo obrigadas a aceitar doações. Vimos, por exemplo, austríacos se oferecendo para comprar comida para a família e o chefe de família reusar, com muita vergonha de aceitar a ajuda. Isso, mesmo depois de dividir um pacote de biscoitos sírios e um refrigerante pequeno para 4 crianças. Nesta mesma família, um dos meninos usava roupa de menina, claramente fruto de doação.

A nossa percepção foi de que as pessoas que ali estavam realmente não querem nada “dado” e  buscam por dignidade, por trabalho… Enfim, novas oportunidades em um mundo onde não convivam .diariamente com a ameaça de morte por “razões insanas”. Vimos muitos jovens com semblante esperançoso, mas também vimos alguns com o olhar sofrido e o corpo cansado de todos os mais velhos. Nas crianças vimos apenas crianças.

Decidimos levar flores amarelas para distribuir e assim o fizemos. A receptividade que tivemos de nossa interação foi realmente muito boa. No mais, não preparamos nada em especial, e decidimos visitar a estação com a ideia de fazer nosso “passeio brabo”, conforme trabalhamos em Manguinhos ou no Abrigo do Cristo Redentor de São Gonçalo.

O que fizemos foi na verdade muito simples e pequeno. Temos toda a consciência disso. Ajudamos a conectar o wi-fi (com um smartphone em árabe, só um palhaço para conseguir), distribuímos flores, brincamos com as crianças, cumprimentamos os adultos, tocamos músicas brasileiras e nos divertimos juntos. A Primeira Dama fez bolhas de sabão, Da Lapa correu pela estação fugindo do ensurdecedor som da “buzina supersônica” das crianças sírias.. E assim passaram nossos poucos momentos ali.

Sabemos que fizemos algo realmente simples, mas tentamos pensar em algo perto do que fazemos de forma sistemática no Abrigo e em Manguinhos. Sabemos que tudo o que fizemos foi apenas levar alguns momentos de alegria, mas estar lá com eles, nos permitiu arrancar alguns sorrisos de gente sofrida, conhecer um pouco melhor a realidade que vimos na TV, e por fim escrever este pequeno relato para os nossos amigos e apoiadores.

Temos a consciência, conforme já dito, de que nosso ato foi pequeno. Simples. Todavia, acreditamos que estes pequenos atos simples, que aliás, fazemos com certa regularidade no asilo, ou na favela podem representar grandes encontros e grandes afetos.

Usamos esta experiência para mostrar para todos os que acompanham nosso trabalho o quanto a nossa sociedade está doente. Guerras, ganância, intolerância, ódio… Se não aceitamos isso em nível global, cabe a nós, tentar mudar. Temos que começar para ontem uma revolução mundial. Cabe a nós mudarmos o mundo do qual não gostamos e podemos começar com gestos simples, em nossos pequenos mundinhos particulares.

Façamos como a linda menina síria. Vamos tentar resistir a tudo o que nos impõem goela abaixo. Com alegria e esperança. Com amor e inteligência. Menos ódio e intolerância, por favor! Nas pequenas coisas, com pequenos gestos.

Podemos começar tentando odiar menos quem torce para outro time, gosta de outro estilo musical, tem uma classe social diferente da nossa, mora em outro bairro, tem outra religião, ou votou em outro candidato ou candidata para Presidente.

Não dá pra começar uma grande transformação, sem antes passar por nosso pequeno mundinho particular. Tenta, vai… Se a gente mudar, o mundo muda com a gente!

Leo Salo

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